Todos nós dizemos grandes verdades. Principalmente quando citamos nomes sonantes. Mas as verdades têm contextos que fazem delas aquilo que são. Quando puxamos essas verdades cheias de intenções e significado, para nosso argumento, apenas estamos a vestir uma roupa que não é nossa. Embora nos fique a matar.
Eu cito bastante. Não o faço por pedagogia, por doutrina, nem sequer por concordar. Faço-o como ponto de partida, não como ponto de chegada.
Temo que o facto de encontrarmos sempre uma frase, dita por alguém incontestável, para sustentarmos a nossa causa, o nosso silêncio ou o nosso comportamento, apenas contribua para nos desresponsabilizarmos de ser pessoas melhores, de pensar pela própria cabeça e tornarmo-nos seres passivos, acríticos e sem dor.
Para mim nada, ou quase, depende só de nós. Nem aquilo que pensamos, nem aquilo que temos, nem aquilo que sentimos é senão o somatório, a diferença, a divisão e a multiplicação proporcionadas pela nossa vivência em sociedade; dos limites, das forças e da envolvente. Como dizer a um sem-abrigo, a um doente terminal, a um deficiente, a milhões de pessoas que morrem de fome: amigo, "tudo depende só de ti"?
Retiro três ideias principais:
- É importante acreditarmos na nossa capacidade. Não para esperar, para receber ou conformar, mas para agir, para procurar, para fazer e para exigir.
- Não devemos acreditar que porque nos alivia saber que tudo o que temos é fruto do nosso mérito, aqueles que se queixam, que sofrem, que minguam, estão assim porque o querem ou escolhem. Não. Estão assim porque todos nós o queremos, o permitimos ou ignoramos.
- Quando cremos que tudo o que cada um faz ou tem depende apenas de si, estamos, no limite, a idealizar uma sociedade asocial, um somatório individualista, onde a circunstância existe apenas para servir os nossos propósitos individuais. Sei que esse é o caminho. Mas é perigoso.