domingo, março 05, 2006

Que Deus venha

Quero que o Céu caia
Que os carros voem
Que o coração saia
E os tambores soem

Quero que os Anjos casem
E que Deus venha
Quero que as águas vazem
Os olhos de manha

Quero o Sol que deitas
E o som nas mantas
Quero as mãos perfeitas
E os frutos que plantas

Quero apagar-te a Alma
Como te apegaste na Vida
Quero roubar-te a calma
E negar-te guarida

Quero deitar-me contigo
E levantar-me com ela
Quero sentir o abrigo
E apagar a vela...

Quero comer palavras
E sonhar com roupas
Quero o pão que lavras
E o ódio que poupas

Quero sentir nada
E amar de tudo ter
Dormir com a madrugada
E ajoelhar ao seu poder

Quero contabilizar o beijo
E facturar o som
Quero hipotecar o desejo
E comprar o Dom

Quero saber onde trais
E onde sorris à Verdade
Quero saber onde vais
O que fazes, Abade

Quero viver de frases feitas
E de conselhos de sempre
Quero linhas direitas
E cabeça de trempe

Quero telefonar-te ontem
E mentir-te amanhã
Quero que os cavalos montem
Buracos na maçã

Quero que os patos pintem
O Céu de mentira
Quero que os galos gritem
Nova que fira

Quero a Vida pelos teus olhos
E a Morte pelo teu bolso

Quero andar pelas tuas antas
E comer pelo teu garfo

Quero ser como tu:
Tão verdadeiro.

Quero que as sombras se libertem
Do que os corpos
Sujos
Prometem

Quero carregar-te de mim
E descarregar-me de ti

Quero esgotar as minhas forças em causas perdidas
e os meus ideais em pessoas iluminadas pelo escuro

Quero desencontrar-me de ti

Ó fome de ser
Ó dilúvio de sentir
Ó guerra sem coroa
Ó Vida

27/02/06

(Desperdício – LCRM)