segunda-feira, março 06, 2006

Tudo depende de tudo

Todos nós dizemos grandes verdades. Principalmente quando citamos nomes sonantes. Mas as verdades têm contextos que fazem delas aquilo que são. Quando puxamos essas verdades cheias de intenções e significado, para nosso argumento, apenas estamos a vestir uma roupa que não é nossa. Embora nos fique a matar.

Eu cito bastante. Não o faço por pedagogia, por doutrina, nem sequer por concordar. Faço-o como ponto de partida, não como ponto de chegada.

Temo que o facto de encontrarmos sempre uma frase, dita por alguém incontestável, para sustentarmos a nossa causa, o nosso silêncio ou o nosso comportamento, apenas contribua para nos desresponsabilizarmos de ser pessoas melhores, de pensar pela própria cabeça e tornarmo-nos seres passivos, acríticos e sem dor.

Para mim nada, ou quase, depende só de nós. Nem aquilo que pensamos, nem aquilo que temos, nem aquilo que sentimos é senão o somatório, a diferença, a divisão e a multiplicação proporcionadas pela nossa vivência em sociedade; dos limites, das forças e da envolvente. Como dizer a um sem-abrigo, a um doente terminal, a um deficiente, a milhões de pessoas que morrem de fome: amigo, "tudo depende só de ti"?

Retiro três ideias principais:

- É importante acreditarmos na nossa capacidade. Não para esperar, para receber ou conformar, mas para agir, para procurar, para fazer e para exigir.

- Não devemos acreditar que porque nos alivia saber que tudo o que temos é fruto do nosso mérito, aqueles que se queixam, que sofrem, que minguam, estão assim porque o querem ou escolhem. Não. Estão assim porque todos nós o queremos, o permitimos ou ignoramos.

- Quando cremos que tudo o que cada um faz ou tem depende apenas de si, estamos, no limite, a idealizar uma sociedade asocial, um somatório individualista, onde a circunstância existe apenas para servir os nossos propósitos individuais. Sei que esse é o caminho. Mas é perigoso.

2 Comments:

At 2:42 a.m., Blogger luisredmarte said...

1- Engraçado que visitas o blog...precisamente quando em tinha desistido dele...e do que ele pretendia significar...

2- As conclusões que tiras, parecem-me acertadas. Mas também a mim me podem "atirar" que é muito mais fácil desconstruir, que construir, abater os outros, que dar de nós...

3- Apesar de acertada, surges do Alto, como quem tem a verdade e com ela castiga, classifica e determina...(talvez possas perguntar-te porquê, porque apenas citam eles?, será que o que eu interpreto como declarações são-no, ou são outra coisa? terá tudo que ter a minha lógica de utilidade, ou poderão existir coisas úteis onde eu não vejo utilidade? será possível enganar-me? ou terei sempre razão?)

4- Se um blog é aquilo que "nós" quisermos que seja, este só não seria para ti se não conseguisses fazer nele aquilo que esperas dos outros. Quanto a mim, fiz todos as penitências possíveis nesse campo, acato as minhas limitações...e sigo o meu caminho... noutro blog (talvez esse possa ser mais "para ti")

5- Não me quero citar,mas se leres, verás que não há contradição no nº1. As coisas não dependem apenas de nós na medida em que são fruto da acção em sociedade, dos limites, do contexto...em que é que isso se contradiz com a necessidade de acreditarmos em nós enquanto "actores" sociais...(a minha crítica aos meus argumentos seria antes admitir que apenas digo banalidades)

6- Quando escrevo que "esse é o caminho" faço apenas uma constatação: com os meus olhos, que no entanto são parciais. E é mais do que isso: é um desejo, escondido, que não seja esse o rumo. Quanto às razões para tal, deixa-las-ia a pessoas mais iluminadas. Eu responderia, sem dúvida, a 2ªa opção.

7- Para mim não tem graça nenhuma que numa sociedade livre, de cidadãos, hajam "eus" e "nós" sem poder e outros "eus" e "nós" com todo o poder...eu sei onde sempre me encaixei e fui encaixado...

8- Quanto ao Marx, já sabes o que penso que ele devia ter feito...

9- Quero-te dizer ainda que apreciei este teu comentário, o seu conteúdo e significado.
Porque não um esforço para mantermos um "espaço" mais ambicioso?

 
At 4:52 p.m., Blogger luisredmarte said...

Concordo com o interpretação do Sennet, não por ter lido a obra...mas porque a minha vida o atesta (por exemplo o meu pai foi parte de um "despedimento colectivo" numa fábrica têxtil, as suas angústias de sobrevivência são tb minhas)...

Mas discordo de ti, quando achas que tens que pensar em "ti" em vez de no "nós"...não há luta social no "eu"...

Para mim o "miraculoso" sucesso do binómio Democracia/Economia de Mercado está justamente em ter conseguido unir o desejo do indivíduo (de ser e querer sempre mais, em confronto com o ser e ter dos outros)e a organização política da sociedade (onde interessa não haver lutas comuns, ou controlar, intrumentalizando as que vão surgindo).

Assim, só a construção consciente de dois círculos( assentes num povo educado e culto), um de maturidade e realização individual (onde procuramos o bem estar individual, de forma responsável)e um outro de consciência social (onde surge uma visão do interesse colectivo, como mais um meio de maximização do bem-estar da generalidade da sociedade, e logo também de cada um individualmente), poderá fazer-nos sair desta "inevitabilidade".

Para mim, as escolhas que se nos apresentam são sempre menores ou iguais às que verdadeiramente existem. Cabe-nos a "nós" fazer diferente.

 

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